Uma das experiências mais marcantes de minhas viagens ao exterior teve como cenário Madrid, na Espanha, no dia 11 de dezembro de 1995. “A primeira bomba a gente nunca esquece” e até então eu nunca havia tido um contato mais próximo com elas, afora as de chocolate, comestíveis. Foi então que, infelizmente, fomos apresentadas.
Eu e dois amigos tínhamos acabado de chegar ao albergue Santa Cruz de Marcenado, aquele mesmo, do banheiro misto. Largamos as coisas e resolvemos sair para conhecer a cidade. Demos uma rápida olhada no mapa e por votação, decidimos ir até o Palácio Real, lindo, que ficava a umas dez quadras à leste de onde estávamos. Legal. O dia estava nublado, mas nosso astral irradiava energia.
"Não Existe um caminho para a paz. A paz é o caminho. (Mahatma Gandhi)"
Caminhamos pela Gran Vía, a artéria aorta da cidade, magnânime em sua arquitetura e tentadora em seus cafés, cinemas e lojas multicoloridas. Cruzamos a Plaza de España decepcionados porque esperávamos encontrar uma galera (tinham nos dito que ali era o point) e não encontramos viv’alma, só o Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança, imortalizados num imenso monumento de pedra.
Estátua de Dom Quixote e Sancho Pança, Praça da Espanha, Madrid, ES (1995)
Seguimos em direção ao Jardines de Sabatini e, bem neste trecho, passaram por nós, num curto espaço de tempo, umas dez ambulâncias, à mil por hora. Todas tinham um coraçãozinho vermelho pintado nos lados e iróóó, iróóó, faziam um barulho dos diabos. Pensei com os meus botões: “nossa, como tem cardíacos nesta cidade!” Comentamos sobre aquilo, mas logo desligamos e continuamos a caminhar, despreocupados e deslumbrados com visual de Madri.
Uma vez dentro do Palácio, nos separamos e fomos explorar suas galerias e salões recheados de cristais, ouros e pratarias, armaduras e armas de guerra, pinturas e móveis antigos, muita pompa e riqueza. Afora uma dor de barriga atroz que me pegou desprevenida e me obrigou a passar um terço do tempo no banheiro (chiquérrimo, diga-se de passagem), o resto foi nota dez!
Praça da Espanha, Madrid, ES (1995)
À noite, quando retornamos ao albergue, nos deparamos com um clima de velório no local. Estávamos alegres e nosso astral não conectava com o do resto do pessoal. Eu não entendia porquê. Sentamos para ver TV e... que horror!! Onde foi isto?? No noticiário noturno, corpos estraçalhados, fumaça e fogo; e sangue, muito sangue por todos os lados. O grupo separatista ETA, depois de dez anos de trégua, resolvera voltar a atacar. E se manifestou da maneira mais brutal que existe: através de um atentado a bomba.
O telejornal dava detalhes e meu estômago embrulhava. “Ataques cardíacos… Então era isto!”. O pessoal que ficara no albergue à tarde escutou o estrondo. Diz que foi à dez quadras dali, a oeste. “Deus é pai e eu sou filha”. Se tivéssemos caminhado na direção oposta talvez não estivéssemos vivos. E esta ideia de morrer no início da viagem, sem ter vivido tudo o que eu queria, me deu um nó na garganta.. Uma certa consciência da brevidade da vida. Sei lá, ir pelos ares não estava nos meus planos.. Não desse jeito.

Fui dormir com uma sensação de mal estar. “Mas será o pé do cabrito!”, como dizia a minha avó. Meu diafragma estava descompassado e eu sentia uma certa azia. Ou angústia. Ou medo mesmo. Seja lá o que fosse, me fez chorar de tristeza.
Mas este não foi o meu único contato bombástico da viagem. Foi o primeiro de uma série. Parece mentira, mas todos os grupos terroristas separatistas resolveram voltar à ativa naquele ano. Se eu fosse paranoide diria que combinaram entre si só pra me perseguir. Socorro! Era eu botar o pé num país e… BUM, as explosões começavam. Eu já estava a ponto de me entregar à polícia alegando inocência: “Não fui eu! Não fui eu!”.
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