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FIM DO MUNDO: O dia que uma chuva parou NY

Amanhecer em NY, 1999

NY, 1999. Não vi a chuva, nem ela me viu. Quando levantei, às 9h da manhã, o sol já tinha retomado o seu trono. Saí sem sombrinha nem ideia do que se passava em New York. Não sonhava que a tromba d’água que caíra das 5h às 8h30 tinha inviabilizado o sistema de metrô, transformando suas passagens subterrâneas em um rio, instaurando o caos na cidade.

Saí serelepe e faceira, pulando as poças e lagoas que teimavam em cruzar o meu caminho. Um cheiro de cachorro molhado inebriava a nós, transeuntes, junto com um bafo morno e úmido que emanava das calçadas recém lavadas pela natureza. Olhando assim, por cima da terra, o dilúvio não parecia ter sido tão destruidor. De fato, o inferno nunca parece existir, até a gente se encontrar nele.

"NY is not a place, it is a feeling"

Madison Avenue, NY, 1999

Madison Avenue, NY, 1999

Desci aos subterrâneos da cidade, sem me dar conta que entrava em uma ratoeira gigante. A plataforma Uptown da Linha 6 do metrô estava superlotada, muito mais que o normal. Mas e lá tem dia normal, em NY? Nem percebi. Estava cheia, o mesmo forno de sempre.

Vinte minutos se passaram, e nada. Nenhum trenzinho, mas muitas novas pessoas. Um calor do cão. Trinta e cinco minutos, que impaciência, o que está acontecendo? Já estava já derretendo, com pingos de suor apostando corrida sob a minha blusa. Muitas blasfêmias, caras feias, minha e da multidão que, a essa altura, se acotovelava por um lugar embaixo dos grandes e inúteis ventiladores de teto da estação.

Uma voz celestial ecoou nas galerias: “A linha Express está interditada, somente trens locais estão funcionando”. Que novidade! Havia dezenas de cartazes espalhados com esta informação - estavam consertando os trilhos. Queríamos saber porque diabos a linha local não estava funcionando.

Campanha antiviolência num cartaz do metrô de NY em 1999

Campanha antiviolência contra a mulher, num cartaz do metrô de NY (1999)

Quarenta minutos se passaram, e chegou um trem. Lotado. Ninguém entrou, ninguém saiu. Não quis nem saber, minha magreza havia de servir para alguma coisa nesta vida: me esgueirei numa fresta entre a porta e um gigante americano suado. Fiquei ali, sem respirar, espremida, gemendo em silêncio. Já estava arrependida, desde o primeiro segundo, de não ter feito meia-volta e tentado um táxi. Agora não tinha jeito, era aguentar literalmente no osso.

O trem não se mexia. Nem ele, nem ninguém. A cada parada, um tumulto, gente tentando entrar, gente empurrando pra sair. Gente gritando, gente rindo, gente nervosa, gente fedendo. As plataformas abarrotadas e eu, ali, tentando garantir meu lugarzinho naquele empurra-empurra. Estava mais do que atrasada, meu horário já tinha ido pras cucuias. Permanecer dentro do trem nem era mais uma necessidade: era uma questão de honra.

Honra essa que estava comprometida, principalmente pela lei da física, que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Mentira. Hoje, ficou comprovado que podia. O meu foi ocupado por um elemento desagradável, que infelizmente se aproveitou da situação para tirar uma casquinha. Grudado no meu corpo, e eu sem ter como me mexer nenhum milímetrozinho, o cara ainda por cima soltava um bafo quente na minha nuca. Tentei pensar que era só impressão minha, mas não era, ele estava se esfregando em mim mesmo. Eu puxava a bunda pra frente, o cara vinha junto. Eu mereço! Alguém aí tem um martelo, por favor? Que cara chato!

Metrô de NY, 1999

Metrô de NY num dia comum, com my roomie Sabrina Martins (1999)

Bolinação, desinformação, a lentidão de reestabelecimento do serviço (e da minha sanidade) era de doer. Uma mexicana abriu a goela, exorcizando o prefeito Rudolph Giuliani. Deu vontade de rir (de nervoso), mas fiquei com vergonha. A situação já estava pra lá de constrangedora. E ainda estávamos na 33rd Street. Eu desceria na 86th. Desceria.

Na 42nd a voz toda poderosa se fez audível mais uma vez nos microfones: “Atenção todos, por favor, este trem só irá até a rua 59th. Não há serviços Uptown após a 59th. Repetindo: 59th Street will be the last stop. Não vou nem dizer a coleção de novos palavrões que aprendi após esta notícia. A galera enfureceu. Caos também é cultura.

Desci na 59th, nem tão triste assim. A multidão de dentro do trem era fichinha se comparada a que se encontrava na plataforma. Comentar o calor que fazia, e a velocidade de passo-tartaruga no interior da estação seria me repetir no assunto. Andei dez metros em dez minutos. Como se as portas de saída tivessem se estreitado de repente, testando nossa paciência. Passei pelo guichê e peguei um ticket para o transfer gratuito de ônibus. Por favor, meu senhor, o senhor poderia sair de cima do meu pé? Muito obrigada.

Quando revi a luz do sol, não acreditei. Foi como se tivesse saído de uma solitária, posta em liberdade depois de meses de torturas e maus tratos. Caminhei em direção à parada de ônibus (já que os milhões de táxis livres que azucrinam e salvam a nossa vida no dia a dia tinham compreensivelmente desaparecido). Só então pude perceber a massa humana que disputava um lugar na calçada. Em todas as calçadas.

NY se transformara em um imenso formigueiro, e todas aquelas milhões pessoas que em um dia comum estão se locomovendo por baixo da terra, tinham saído da toca, como ratos desgovernados. Que medo! Somos profundamente dependentes do sistema metroviário. Sem ele, NY para. Parou.

Madison Avenue, NY, 1999

Sem metrô, uma NY caótica (1999)

Cheguei na bus stop. Adivinhem? Não, eu não ia me meter em outra lata de sardinha. Not me, beibe. As zilhões de almas que, como eu, conseguiram escapar vivas do inferno, estavam lá novamente, se tapeando por uma vaga no bus. Olhei para uma plaquinha que dizia: 60th Street. Beleza. Respirei fundo, engatei uma primeira, e caminhei, 22 quadras até o meu compromisso.

26 de agosto de 1999. Nostradamus errou na data: o fim do mundo foi hoje.

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