O segundo atentado a bomba a gente não esquece: se traumatiza. Porque não é um fato isolado, uma má sorte, é como um raio cair duas vezes no mesmo lugar: você passa a achar que vai cair a terceira. Fica com receio de andar na chuva. Mas deixa eu contar o que aconteceu.
Aterrissei em Londres para um semestre de estudos logo depois do Reveillón 96. Cidade de ressaca, aquela coisa toda. Foi amor à primeira vista. E paixão à prazo. Uma cidade rústica, urbanamente pintada em tons pastel. Não se pode dizer que é caliente e transpira alegria, como Barcelona, por exemplo. Mas é acolhedora, extremamente organizada e limpa. Como a casa da gente.
"Um dia ruim em Londres é melhor do que um dia bom em qualquer outro lugar" (expressão popular)
Com milhões de habitantes, Londres é uma megalópolis de contrastes. Tem um lado meio Hooligan, desvairado e imprevisível, que convive pacificamente com as vovós-ciclistas, em suas bicicletas com cestinhas cheia de flores. Cosmopolita, com ETs de todos os cantos do planeta aterrissando a cada minuto em seu solo, Londres fala todas as línguas, de boca cheia e brincos no nariz.
As famosas cabines telefônicas de Londres (1995)
Cadeira cativa do circuito fashion, é ali que o mundo pop faz a festa, lança tendências e inventa moda. Piercings, tattoos, cabelos multicoloridos, penteados exóticos, saltos plataforma, meias rendadas, microssaias, correntes e todos aqueles badulaques que você só usaria no Carnaval (e olhe lá), desfilam autenticidade nas passarelas dos metrôs, nos supermercados, parques e lugares comuns. Trivial, meu caro Watson. Ou você está in ou você está out. Ou não está nem aí, que é o que a maioria dos londrinos faz.
Você é o que é, faz o que quiser, da forma que bem entender.
Por tudo isto, definitivamente, eu estava deslumbrada. O choque do silêncio e do barulho, da luz e da sombra, do velho e do novo, do certo e do errado, tudo mixado como uma grande rave. Uma cidade que pulsa. De sangue azul pintado a spray. De ritmo frenético. De coração mais que aberto… implodido pelo IRA, naqueles dias frios do inverno de 1996.
Estação de Trem Atocha, em Madrid, ES (1995)
O BBC News deu a notícia: um prédio foi pelos ares numa nova ofensiva terrorista do Exército Republicano da Irlanda. Sem vítimas, foi só um aviso. Assim, uma espécie de aperitivo indigesto. Como aquela piada do sequestrador português que manda de presente a própria orelha, junto com um recado ameaçador: “esta orelha é a minha, a próxima será a do seu filho”. Não houve mortos, mas foi o suficiente para aniquilar com a moral das pessoas.
Era só o que me faltava. Bombas, de novo? A semente do medo estava plantada. Durante uma semana, só se falava naquilo. IRA pra cá, IRA pra lá. Irada estava eu. “Que raio de brincadeira é essa? Agora essas criaturas não têm mais o que fazer a não ser ficar explodindo a paciência da gente?” Estava a ponto de perder a cabeça. Em todos os sentidos.
Mas graças a Deus, a semente não germinou. No more bombs, no more panic. E a vida voltou ao normal. Até que...
Piccadilly Circus, meca comercial, milhares de pessoas, hora do pique. Um ônibus vira sucata em plena Regent Street, uma das ruas mais famosas e movimentadas de Londres. MY GOD! Dessa vez, houve mortos e feridos.
Na verdade, aquele não foi um atentado planejado. Por ironia do destino, o “aspirante a terrorista”, de 17 anos, que estava carregando os artefatos da bomba em uma sacola, sem querer explodiu-a. Foi direto pro inferno, mas deixou muita gente, por tabela, padecendo aqui na terra. Gente que não tinha nada a ver com a sua falta de experiência.
Houses of Parliament e a torre do Big Ben, Londres, UK (1996)
Minha vontade era sumir. O que eu estava fazendo ali? Esperando para ser a próxima vítima? Haveria próximas vítimas? Quando? Onde? “Eu quero a minha mãããe..” Terrorista Trapalhão? O amadorismo me assustou mais do que todo o resto.
Querendo ou não, esses acontecimentos mexem com nossa psique e estrutura emocional. Não sei se já estava meio neurótica, psicótica ou outra ótica qualquer. Uma coisa era certa: não estava normal. Pensei até em fazer meu testamento, caso não sobrevivesse àquela guerrilha urbana. Só não o fiz porque, ao final das contas, não encontrei nada de valor para deixar mesmo.
Na frente da Estação Earl´s Court, do metrô (Underground), Londres, UK (1996)
No Underground, o metrô deles, eu não vacilava: se entrasse alguém com cara estranha (e gente estranha é o que não falta em Londres), meio suspeita, mal barbeada, de capote preto, e carregando uma maleta rechonchuda… Tchau mesmo! Eu saía chispando do vagão, descia na estação e ia lá pra outra ponta do metrô. Tá louco? Vá que o cara resolva que é ali mesmo que ele vai mandar tudo pro espaço, em nome da libertação da Irlanda ou sei lá do quê. Eu hein? Tô fora! Não tinha nada a ver com a história nem queria fazer parte dela como vítima de atentado.
Minha neura era tal que eu patrulhava até a mim mesma. Com certeza alguém aleatoriamente me olharia desconfiado, então, evitava andar com sacolas muito volumosas para acabar com qualquer mal entendido. Vê que absurdo! Era óbvio que não sou, nem nunca fui terrorista, mas em situações de estresse pós-traumático as pessoas desconfiam até da própria sombra. E estava todo mundo traumatizado em Londres naqueles dias.
Era impossível não pensar que virar migalhas era uma possibilidade real. A cada cinco recados no painel eletrônico da plataforma de embarque, um dizia “Preste atenção aos seus pertences. Mantenha-os junto a você. Caso encontre algum pacote desacompanhado, não o toque e comunique imediatamente ao guarda mais próximo." Super agradável.
Não preciso dizer que, mesmo disfarçadamente, eu sempre dava uma olhadinha “de canto” embaixo dos bancos e até mesmo dentro das lixeiras. Sabe como é, tinha que dar a minha contribuição como cidadã. Leia-se: “Meu Deus! será que tem uma bomba escondida aí??".
A loucura é tão grande que a gente acaba enredado nela sem perceber.
Tudo isso durou uns dois meses.. No último mês, eu já estava mais ou menos acostumada com os tais quarteirões interditados, sirenes, cordões de isolamento. Passava por eles cantando “deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau!”, tentando substituir a taquicardia por uma serenidade histérica. Basicamente, um grau maior de insanidade (e eu pensando que estava melhorando).
Um dia, ao me aproximar de um parque perto do Chartered Institute of Marketing onde eu fazia uma especialização, me deparei com carros de polícia, fitas amarelas impedindo a circulação, coisa de filme. Os pelos da minha nuca automaticamente se arrepiaram. Perguntei ao policial o que era. "Alarme falso", respondeu. Alguém deixou uma sacola encostada num muro, na dúvida, o Esquadrão Antibombas explodiu a sacola. E o muro.
Olhando para a cena, ali eu decidi: não, não construiria muros dentro de mim. Não viveria emparedada entre medos, angústias, desconfianças. "Para receber amor, é preciso dar amor". Seguiria olhando o mundo livre de prejulgamentos, com simpatia e empatia. "Há muito mais pessoas do bem e de bem, é nisto que acredito". Renovei meu voto de confiança à humanidade. Com uma explosão de paz no peito, me libertei.
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