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No free cigarette

Bleecker Street, SoHo, NY

Primeira semana em NY, iniciei minha coleção de gafes. Morar no exterior tem dessas coisas, até a gente acostumar com a cultura local, leva um tempo. Sobretudo, quando há uma barreira linguística. Mico número um:

Entrei numa Deli no SoHo, bairro descolado, cheio de lojas, galerias de arte e restaurantes bacanas para comprar cigarros. Sim, eu achava cool fumar socialmente. O que tem de mal um cigarrinho de vez em quando? Eu conto: tem mais de 7.000 substâncias químicas e pelo menos 69 delas causam câncer. Hoje não chego nem perto, mas na época...

O cidadão detrás do balcão era, pra não variar, indiano. Em 1997, a maioria dos proprietários das groceries stores de Manhattan, para a minha sorte, era desta nacionalidade: o inglês deles era bem mais fácil de compreender. Para o meu azar, acho que o entendimento não era recíproco.

"Excuse me, sir, do you have the cigarette Free?"

"No free cigarette, no free cigarette."

"Não, meu senhor, o sr. não está entendendo. Não quero cigarro de graça, ‘Free’ é uma marca. O senhor tem?”

"No free cigarette, no free cigarette!"

Dei uma esticada de olho na prateleira e não achei a embalagem que eu conhecia no Brasil. Tentei de novo.

"Free é a marca. Uma caixinha assim, branca, azul e vermelha. O senhor sabe se existe aqui nos Estados Unidos?"

"No free cigarette!! Get out! No free cigarette!!!"

Bleecker Street, SoHo, NY

Ficou irado comigo. Começou a gritar e gesticular e a apontar para a saída. Pensei que indianos não perdessem o controle. "No free cigarette, no free cigarette!!!" O homem estava fora de si. E foi me enxotando porta afora. Fazer o quê?

"Calma, moço. Me dá qualquer marca aí, então..."

Foi assim que comecei a fumar Malboro. Malboro Lights.

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