O Atelier Kobra é um dos espaços do Centro Cultural Fábrica São Pedro, um complexo de arte, cultura, lazer e gastronomia que vai fazer você se perguntar como ainda não conhecia esse portal do paraíso tão pertinho de São Paulo.
Você entra no carro, coloca um som e, quando começar a sentir o gostinho bom de pegar a estrada, chegou. Uma hora, cem Km e a antiga Companhia Fiação e Tecelagem São Pedro surgirá imponente e convidativa feito uma sereia sedutora aos velhos marujos apreciadores de arte.
Maruja, no meu caso.
É lá que Eduardo Kobra, artista gigante, faz jus ao tamanho de suas obras. Quem já se deparou com seus imponentes murais coloridos, ladeando prédios inteiros sabe do que estou falando. É perplexidade, que fala?
Tintas, sprays, andaimes e a sensação de transitar pela criatividade de Eduardo Kobra
O impacto de Kobra na vida da gente
Lembro da primeira vez que subi ao Mirante do SESC Avenida Paulista pra ver a Paulicéia desvairada e dei de cara com Oscar Niemeyer me olhando enigmático. Que susto! Quase o cumprimentei, tão real! O mural com 52 metros de altura e 16 de largura, na lateral do edifício Ragi Buainain, foi um presente de Kobra para a cidade, no aniversário de 459 anos.
Um presente pra gente.
Anos antes, num domingo primaveril, levei a Fabiane Gabardo, amiga gaúcha em visita a São Paulo, para conhecer o Beco do Batman, na Vila Madalena. Caminhávamos pelos arredores entrando e saindo de lojinhas quando a boca escancarada de Tom Zé e toda a sua irreverência surge gritando na nossa frente, estampada numa garagem, ao lado de uma escadaria. Infelizmente, essa obra não existe mais.
Mas foi um susto.
A arte do Kobra faz isso: deixa a gente impactada, incrédula e admirada. Nosso queixo cai, o pescoço gira, o embasbacamento (existe essa palavra?) é involuntário. Foi assim quando passei de carro pela fachada da fábrica da Cacau Show, na Rodovia Castelo Branco. Ali, na altura do km 35, em Itapevi, um homem remando em uma canoa cheia de cacau.
“Meu Deus! Que coisa linda! Deve ser o maior grafite do mundo!”. E é: tem 5.742 metros quadrados. Saiu no Guiness.
Kobra bateu o seu próprio recorde, superando o, agora, segundo maior mural grafitado: Etnias, criado para as Olimpíadas Rio 2016, na Praça Mauá, Orla Conde, do Rio de Janeiro.
Tom Zé, na Vila Madalena, SP (2016).
Galeria de Fotos
Uma de suas obras mais famosas em exposição no Atelier é O Beijo (2012). Originalmente pintado no High Line, em Nova York, faz uma releitura colorida do casal imortalizado pelo fotógrafo norte-americano Alfred Eisenstaedt (1898-1995), em 13 de agosto de 1945, numa comemoração pelo fim da Segunda Guerra Mundial.
Curiosidades sobre Eduardo Kobra
- Da periferia para o mundo: Filho de um tapeceiro e de uma trabalhadora do lar, Kobra nasceu em 1975 no Jardim Martinica, bairro pobre da zona sul de São Paulo para se tornar um dos maiores muralistas da atualidade, com obras em cinco continentes.
- Arteiro de rua clandestino: Meninada classe média, a mamãe leva à escolinha de artes. Molecada da "perifa" pinta nos muros da vizinhança. Aos 12 anos, autodidata, Kobra começa a colecionar advertências por pichações não autorizadas e é detido três vezes. De muro em muro, seus aprendizados o levam a, nos anos 1990, fazer cartazes, cenários e decorações para eventos de empresas e de agências de publicidade. É seu início profissional.
- Visibilidade em ascensão: Na década seguinte, sua arte de rua cresce como o tamanho de suas obras. Em 2007, ganha mídia com o projeto Muro das Memórias, fotos antigas de São Paulo reproduzidas pela cidade em tons de sépia e PB, um estilo de grafite diferente e original, um embrião da predileção por revitalizar lugares e fortalecer a sensação de pertencimento de seus habitantes.
- Salto internacional: Em 2011, eis o primeiro mural fora do Brasil, em Lyon, na França: um paredão para ajudar na valorização histórica de um bairro. Depois vieram Espanha, Itália, Noruega, Inglaterra, Malaui, Índia, Japão, Emirados Árabes Unidos, diversas cidades norte-americanas, entre outras. Na Itália, um trabalho inusitado: pintou um Davi de Michelangelo diretamente no mármore de uma pedreira de Carrara, lá mesmo, onde o artista italiano procurava pedras brutas para suas esculturas.
- Grandes inspirações: Dentre os ícones admirados por Kobra estão o anti-establishment Banksy (street art, britânico), o rei do 3D, Eric Grohe (norte-americano), Keith Haring (1958-1990) e o mexicano Diego Rivera (1886-1957). Eu citaria ainda o americano Shepard Fairey (acertei, Kobra?). Já os inspirados por ele, dá uma olhada no trabalho do espanhol Okuda San Miguel (nascido em 1980), qualquer semelhança não é mera coincidência, não é mesmo? Todos geniais.
Eu vejo cores em você
Se Andy Warhol tinha a sua "The Factory" e revolucionou a ideia de arte como produto e processo em massa, com um toque de ironia e crítica social velada, Kobra reinterpreta essa produtividade com um foco incisivo na mensagem universal.
"Não pense em fazer arte, apenas a faça. Deixe que todos decidam se é bom ou ruim, se eles amam ou odeiam. Enquanto eles estão decidindo, faça ainda mais arte", ensinou Warhol.
O ateliê de Kobra é a materialização dessa filosofia de produção incessante, mas com a precisão de um propósito. Tintas, sprays e andaimes transformando visão de mundo em realidade tangível. Ali, o processo é a própria obra.
Latas de spray usadas por Kobra estão à venda na loja do Atelier em Itu.
E as cores! Ah, as cores!
A paleta de Kobra, rica em vibrantes tonalidades, por vezes me lembra a alegria contagiante de outro artista que gosto muito: Romero Britto. E pensar que, lá nos idos 1998, quando morei em NY, deixei de comprar um original do pernambucano numa galeria do Soho por 150 dólares, porque achei que não conseguiria levar para o Brasil. Ai, ai…
Como diria Britto, "A arte é importante demais para não ser compartilhada." Kobra a compartilha em grande escala, nas ruas e muros do mundo, mensagens de paz, tolerância e respeito.
Arte com propósito
A preocupação de Kobra com causas ambientais e sociais se traduz em identidade artística: ele pinta o que sente no fundo do coração. Os temas vão do combate à pesca predatória ao veto à exploração de animais, aquecimento global, preservação de comunidades, poluição dos ecossistemas, injustiças mil.
No projeto Realidade Aumentada (2015), pintou dez painéis em dez dias, convidando à reflexão para o invisível aos nossos olhos: crianças desaparecidas, pessoas em situação de rua ou marginalizadas. Na série Recortes da História, retrata momentos marcantes da história da humanidade, como o discurso do ativista norte-americano Martin Luther King (1929-1968).
Já no Olhar a Paz, retrata personalidades que tenham lutado contra a violência, endossando mensagens de fraternidade e não-violência. O pacifista Mahatma Gandhi (1869-1948), a vítima do Holocausto Anne Frank (1929-1945), a ativista paquistanesa Malala Yousafzai (1997- ) e o cientista Albert Einstein (1879-1955) estão entre os retratados.
Uma ótima notícia? Muitas dessas obras estão em exposição no Atelier Kobra, em Itu. Vai lá!
Espaços do Centro Cultural
Os espaços do Centro Cultural Fábrica São Pedro voltados à arte, cultura, lazer e gastronomia são:
Arte
Museu FAMA
Ateliê Kobra
Ateliê Mestre Alvino
Ateliê Gabriel Ambrósio
Ateliê Guilherme Kramer
Dan Galeria Sala São Pedro
Duo Espaço de Arte
Aviação
Museu Asas de Um Sonho
Design
Ana Verona
Turbo Design
Homenco Antiguidades
Gastronomia
Cozinha São Pedro
Espaço de Eventos
Quintas São Pedro
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